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QUANDO É PRECISO DIZER ADEUS
- Eu te amo. Em todos esses anos, só amei você.
As palavras saíam quase que aos sussurros, provocando um som menor que o da própria respiração.
- Vou sentir saudades. Você nunca terá uma idéia precisa do que a gente sente quando precisa se despedir de alguém que amamos. Sorte sua.
Mais uma vez, cada sílaba era pronunciada num sopro quase inaudível. Como se a qualquer momento, a frase inteira pudesse ganhar vida, e acontecer ali mesmo, naquele exato minuto.
- Escuta, amor, presta atenção: para sempre serei tua.
Dessa vez, foi possível ouvir o ranger da madeira da qual a cama era feita. Os lençóis, delicadamente, mudavam de formato, conforme a posição de quem se remexia embaixo dele. Um suspiro profundo e o silência. Ele dormia a seu lado.
- Olha, ela insistia inutilmente, foi sem permissão que te amei. Não tive culpa. Foi meu coração que agiu sem que eu mandasse. Tive tanto medo que me deixasses um dia e, agora, eu que te deixo. Sentirei falta do teu cabelo macio e do cheiro do perfume que usavas toda manhã. Não sei como viverei sem ouvir a tua voz me chamando, nem o teu sorriso. Viver é uma aventura tão incrível que, de um dia para o outro, tudo muda e já não podemos escolher mais nada. Não foi escolha minha te deixar. Apenas estou seguindo meu destino. Acho que era necessário. Era preciso que ficasses sozinho um tempo. Até entender que não somos para sempre, nem é eterna a natureza de nossos sentimentos. Uma hora, eles mudam e se transformam. Sei agora, que não te amarei mais como sempre. Daqui pra frente, nutrirei por ti outro tipo de amor. Mas, juro-te, não será menos intenso por isso.
Pela janela, um feicho de luz tênue e azulada entrava devagarinho. Sem mostrar muito do que havia lá fora, mas começando a descortinar o que tinha dentro do quarto. Ela estava ao lado dele, segurando sua mão. Haviam se amado muito. O amor deles, marcou sua vida para sempre e provocou profundas mudanças em sua alma. Muitas vezes ela se perguntava quando, sem ele, tinha sido tão feliz? Não encontrava resposta. A única certeza que tinha era a de que coisas assim não acontecem o tempo todo, nem com todo mundo.
- Preciso deixar-te. Desculpa.
Não saiam mais sons de sua boca. As palavras mudas, eram proferidas mais com o pensamento semi-adormecido.
- Adeus. Preciso ir enquanto dormes. Não suportaria ver-te pedindo para eu não ir. Vês, sempre te amei, de todas as formas nas quais foi possível amar-te. Mas, preciso pedir-te algo. Faze isso por mim, por favor: Sê feliz. Não te culpes por não termos vivido tudo que podíamos. Tenhas certeza de que vivemos o que era necessário. Não te arrependas das palavras duras que me dissestes algumas vezes. Nem de teres me magoado em alguns momentos. A vida precisa desses desentendimentos para ser, verdadeiramente, sentida. Não lembras do que não fizemos, mas do que realizamos com amor. Peço-te que siga em frente sem sofrimento. Esse é o melhor perdão que podes me dar por eu ter te deixado. Rezarei por ti, acredite. Mais uma vez, adeus. Não. Impossível dizer-te algo assim, já que em todos esses anos, nunca estivemos separados. Até daqui a pouco. Deseje-me boa viagem.
Seus lábios se contraíram de dor. Uma lágrima de medo rolou da face dela. Já era difícil a despedida do único e verdadeiro amor que teve na vida, mas não saber o que a esperava no caminho, era-lhe assustador. Mas, era preciso ir. Já ia se acostumando com o fato de que não voltaria a encontrá-lo tão cedo. Era melhor mesmo que fosse ela a ir embora. A fraqueza de seu espírito não suportaria vê-lo partir primeiro. Uma dor incomensurável tirou-lhe todos os sentidos. Não conseguiu pensar em mais nada.
Ele, finalmente, despertou. Ouvira o que pensou ser um grito abafado. Chamou por ela, mas não recebeu resposta. Não demorou a perceber que ela se fora. Viveram juntos por 50 anos. Foram testemunhas da vida um do outro. Foram unidos pelo coração e agora, ele os separara, sem direito a despedida. Não conseguiu chorar de imediato. Na verdade, nunca havia chorado na vida. Notou que a face dela estava tranquila, embora ele pudesse jurar que encontrava-se levemente triste. – Será que a fiz feliz?, pensou. E se perdeu nesse pensamento por um tempo. Aos poucos, a luz do sol clariava a face dela, vivificando seus cabelos dourados. Ele então entendeu que não a veria mais no raiar do dia seguinte. Foi ai que chorou. Um pranto tão forte quanto o amor que sentiu por ela durante toda sua vida. Inclinou-se diante de seu rosto e a beijou. Enquanto isso sua alma, discretamente, dizia adeus! Em nada mais conseguiu pensar.
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