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ATRAVÉS DO ESPELHO
Minhas amigas andam dizendo que tenho sido muito chata. Ok, novidade nenhuma porque sempre fui um porre. Mas, né? Quando a galera que a gente conhece começa a dizer esse tipo de coisa é porque o bicho tá pegando – ou não.
Eu nunca me importei muito com o que as pessoas pensam e falam de mim, desde que seja verdade, claro. Mas se tem uma coisa com que eu me importo, e muito, é com a opinião daqueles que eu considero. Num gosto de dar uma de “gênio incompreendido” porque, né? Num sou tão “gênio” assim pra ficar fazendo cu doce e agindo como se soubesse de tudo mais que todo mundo. Mas, às vezes, eu queria que meus amigos entendessem algumas das minhas opiniões. Por isso, resolvi, como boa jornalista, fazer uma entrevista comigo mesma…quem sabe assim eu não me ajudo também a entender porque porra eu tenho sido tão chata até quando estou sozinha.
_ Você tem uma implicância gratuita com algumas pessoas com personalidade diferente da sua. Com que frequência isso acontece?
- Então, não é *sempre*. Só é *quase sempre*, tem diferença. E não é gratuita, não. Custa um monte pra mim ter que aguentar certas figuras. Mas é que tem um tipo de pessoa que, oi, não desce nem com skol. Tipo, eu sou toda “certinha” a maior parte do tempo, não que eu tenha vocação pra santa mas, né?. Num tem jeito. Sou o tipo *Gabriela* mesmo, serei sempre assim. E quando eu falo “certinha”, isso não significa que eu fico *fazendo a Sandy*, porque pára, eu sou bem puta quando eu quero e gosto de putaria sim, porque oi, putaria é básico. Mas tou falando em agir de acordo com o que falo. Procuro ser coerente nesse sentido. Para mim, isso faz um ser humano ser autêntico, porque se tem uma coisa que eu ODEIO é gente fingida ou que diz uma coisa e faz outra. Nossa, como isso me tira do sério. Tipos, tem a Rô e eu admiro muito ela. É mulher, oi, gosta da *coisa* e faz o quer com a própria vida, sem arrependimentos. É esse tipo de pessoa que eu gosto de estar perto, porque eu sei que vai ser sincera sempre, principalmente quando tiver de saco cheio de mim e me mandar tomar no c*.
- Que qualidades uma pessoa deve ter para ser seu amigo? Deve ser difícil conseguir isso com você, não é?
- Super é. Cara, eu sou muito tímida. Se a pessoa não chegar junto, puxar assunto, eu não vou me aproximar mesmo (claro que, às vezes, uso isso como desculpa para não falar com alguém com quem eu não esteja a fim). Pense numa pessoa super desconfiada e analítica com gente. Sou eu. Um amigo me disse uma vez que eu tenho um questionário imaginário e vou “tickando” o que há de bom ou ruim na pessoa para, só depois, permitir-me ser sua amiga, ou não. Claro que não é bem assim. Algumas vezes a empatia é mais forte que o instinto de auto-preservação. Eu só acho que amizade é uma das coisas mais valiosas do mundo. Procuro não ficar gastando muito e, além disso, Já me fudi muito com pessoas que eu achava que eram meus amigos e acho que depois de um tempo só-se-fodendo, você acaba ficando mais seletivo mesmo. Depois da minha família, vêm meus amigos e isso, pra mim, tem tanta importância que eu NUNCA chamaria de amigo alguém que não fosse capaz de dividir comigo a sua história. Porque, né?, muito fácil neguinho vir chegando, ir pra balada com você, beber junto, mas não ser capaz de também de chorar com você ou se abrir com você. Eu considero esse tipo de coisa importante. Num tem muito segredo. Também, pra quê, né?. Pra ser meu amigo, basta que a pessoa seja ela mesma (pro bem ou pro mal) e não me venha com essas mesquinharias de querer ser meu amigo por eu ter isso ou aquilo e talz, até porque, oi, a única coisa que eu teria para “dar” a alguém, nem todo mundo iria querer.
- Você vive implicando com sua colega de apartamento. Por que?
- Não é implicância. Na maioria das vezes é falta de paciência mesmo com o “fantástico mundo de Bob” onde ela vive. Então eu meio que *catuco* pra ver onde é que vai dar. Ok. Num sou a pessoa mais pé-no-chão do planeta. Tá, também sei que não sou a dona da verdade (mas gostaria muito de ser). E, tá bom, tá bom, eu sou mesmo pau no cu de vez em quando.
- É verdade que sua arrogância é uma maneira de você se proteger das pessoas? Ou será que isso não é uma desculpa que você inventou para si mesma para não transparecer que você se acha melhor que os outros?
- Cara, não tem coisa que me deixe mais pirada do que esse papo de ser-melhor-que-os-outros. NINGUÉM é melhor ou pior. As pessoas só são diferentes. Tipo, eu gosto de campo, enquanto a maioria das pessoas gosta de praia. Tem gente que acha que vai morrer se ficar em casa na sexta à noite e, dependendo da balada, eu prefiro ficar em casa na minha a me meter em roubadas. Eu adoro coisinhas fofinhas e bonitinhas e cores básicas. Minhas amigas adoram extravagâncias. Eu gosto de sossego, MPB, água de coco e dos livros do Saramago. O resto do mundo curte raive, eletrônica e ficar loucão. É diferente. Eu não sou arrogante (tá, às vezes, sim), nem mau-amada, nem a bruxa do 71, ou o caralho que alguém já deva estar me chamando a essas horas. Claro que eu sei que ando parecendo uma velha reclamona, precisa nem dizer, né? Mas, pára, é muita gente chata, hipócrita, mentirosa e fútil para eu aguentar. Preciso filtrar de vez em quando, se não, minha cabeça explode. Ai, oi, faço a *egípcia* com algumas coisas e pessoas mesmo que é pra ver se alguém entende que eu não vim ao mundo pra ser igual a ninguém.
- O que você, no auge da sua “tolerância zero”, não consegue aceitar nas pessoas?
- Olha, pra ser bem sincera, eu gostaria que meu toleranciômetro tivesse uma escala mais larga. Mas sou muito exigente com pessoas. Eu fico pra matar com gente mentirosa e com tipos torpes que eu vejo por ai, que não entendem de nada e “fingem” que são descoladas e conhecedoras do mundo, tudo no melhor estilo: colar, colou. Também odeio essa modinha de marketing pessoal. Ai, pára, né? Ninguém merece uma pessoa que só fala de si mesma, que acrescenta mais do que deve às histórias e vive das glórias do passado. Ai, dá uma angústia. Outra coisa que eu não entendo é a traição. Eu posso estar correndo o risco de parecer ser a pessoa mais ingênua do mundo mas, tipo, eu sempre achei que gostar de alguém é ficar com esse alguém e ponto. Sem reticências. Sem aquela desculpinha ridícula de que ele/ela me trai também. Sem ficar arrumando desculpas. Cara, eu não tenho nadíssima a ver com a vida de ninguém, mas não me peça pra respeitar gente assim, porque, né? São dessas pequenas coisas que o caráter de uma pessoa é feito. Moralismos à parte, eu fico pensando sempre que uma pessoa que mente, que precisa de uma máscara para se apresentar aos outros ou que trai aquele/aquela que diz que ama…porra, merece ter credibilidade em relação a alguma coisa? É aquela história de ser coerente. Agora, oi, se a pessoa for uma boa filha-da-puta, então tá. Ai, tudo bem. Não há conflito entre o que ela é o que aparenta ser.
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