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DOIS ANOS
Preciso de uma outra vida. De um novo tempo.
A solidão da minha alma é tão profunda. A escuridão nos meus olhos me deixa tão perdida.
Deve haver mais nesta vida do que apenas saudade.
Queria poder descobrir meus próprios segredos. Talvez eu sofreses menos. Talvez eu me tornasse mais forte. De qualquer forma, eu só queria que doesse menos esse vazio no peito.
Há exatamente dois anos cheguei. E hoje, longe de todos que amo, percebo que é preciso uma briga diária com a dor que a saudade abre na gente para que nos sintamos, minimamente, felizes. Cada dia mais, eu percebo também que abri um caminho sem volta.
Eu sei que seguir essa trilha foi escolha minha, mas isso não diminui a dor que eu sinto, nem me deixa mais forte. Às vezes faltam forças para continuar existindo, sem que se veja futuro, razão, motivo. De vez em quando, eu fico procurando algo que faça tudo fazer sentido e eu não fique com a sensação de que tudo isso é inútil.
Por que a gente sofre, mesmo quando foi nossa escolha? Por que choramos se podemos voltar a qualquer momento ao ponto de onde começamos a caminhar e fazer outro caminho?
Às vezes eu sinto como se esvaziasse em mim toda a confiança, toda coragem, toda fé. É como se eu sentisse que não existe caminho possível. E ai dói mais ainda. A única força que me segura é o amor dos meus pais. É saber que eu sempre terei para onde voltar. Essa é minha fortaleza, minha paciência, meu conselho. Sinto falta do mundo protegido que o amor deles criou para mim.
Mas já é hora de crescer. Eu sabia que em algum momento, isso aconteceria. Sabia que teria que fazer escolhas e que, nem sempre, elas seriam fáceis. Mas não imaginava que essas escolhas me deixariam tão sozinha. Não sei ao certo o que agora é mais doloroso: o caminho ou ter que segui-lo sozinha.
O que mexe mais comigo é ver o quanto tive que ser forte nestes dois anos. É perceber que, embora eu saiba que o pior já tenha passado, e que agora minha vida esteja melhor, esse é o momento em que menos eu tenho. Talvez só porque agora eu tenha conseguido tempo para sentir, de verdade, a falta que me fazem aqueles a quem eu amo. Ou talvez porque eu tenha, finalmente, entendido que para onde quer que eu vá, jamais deixarei de ser quem sou e de amar quem amo.
JOGANDO A BOLA
Acontece que estou mudando. É uma transformação no fundo da alma. Dessas que direcionam a gente para um caminho só. É como se estivesse mudando de sentido, a vida.
Quando foi a última vez que senti algo de verdade? Não sei. Os meus dias tem sido repletos de vazio. Uma escuridão nos olhos. Uma tristeza no infinito. Isso ou aquilo e no final, acabo não sentindo nada. Perguntei para mim mesma o que diz meu coração e não consegui encontrar nenhuma resposta. De tão vazio, o eco retumbou. Doeu e eu pude perceber que o sentimento faz a gente ficar aquecido.
Sinto falta dos meus amados que aquecem os pedaços da minha alma. Daqueles que se foram, daqueles de quem eu me fui, dos que ainda não chegaram. Isso eu sinto de verdade e cada vez que penso nesses amados, sinto uma emoção e um calor no peito. Fico feliz porque, de certo, sei que nem tudo está perdido.
Acontece que a gente acostuma a viver só uma metade. A parte que é nossa, que é toda íntima, essa a gente deixa pra viver em segredo. A gente acaba deixando pra ser verdadeiro na frente do espelho, ou sobre o travesseiro, naqueles poucos segundos antes de dormir. Acabamos descobrindo, um dia, que o que realmente somos, ficou perdido ou, simplesmente, deixou de ser.
Eu não quero ser assim. Não quero que isso aconteça comigo. Eu quero deixar de ser o que os outros são e exigem que eu seja e voltar a fazer as coisas que meu sentido permite. Preciso deixar de ter medo, de negar, de me angustiar. Viver é uma bola que a gente chuta pra frente. Se o drible der certo, é gol. Se bater na trave, teremos sempre outra chance. Até que o jogo acabe.
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