VIDA REAL

Hoje eu acordei pensando nos tantos sentidos que pode ter a nossa vida.

São nãos que encontramos no caminho e nos paralizam.

São sentimentos que encontram os nossos e, de alguma maneira, nos marcam para sempre.

São peças de um quebra-cabeça que pode ter qualquer forma.

Isso tudo é tão incompreensível. Tão irreal.

Temos sempre apenas um momento para as nossas maiores decisões e uma vida inteira para conviver com isso.

Não é engraçado que por mais aleatória que possa ser uma escolha, ela sempre faz algum sentido?
Ñão é estranho que a reta que seguimos, na verdade é apenas um círculo de erros e aprendizados?
Eu cansei de perguntar o por quê. Cansei de querer saber, de adivinhar, de duvidar. A vida vai acontecer de qualquer jeito, quer eu queira ou não. Eu também decidi que não vou mais buscar respostas para aquilo que eu já sei. Que tentarei conter minha impaciência e ansiedade. Que segurarei meu medo de viver o inevitável. Porque invevitável é a própria vida.

Mas confesso que estou cansada de promessas vazias, de gente que vive de aparências, da aparência das coisas. Estou cansada do pó de todo dia.

Às vezes me cansa a vida. Às vezes ela me surpreende. Mas só raramente ela me faz feliz. Só muito de vez em quando eu me imagino sendo tudo que gostaria e vivendo da maneira que queria. Não me permito isso com muita frequencia. Pode ser perigoso demais acreditar nos próprios devaneios. Pode ser triste ver os sonhos fracassarem. Isso é tudo que eu compreendo. É de onde vem minha força.
Só de vez em quando eu queria que a vida se mostrasse pra mim sem muitos mistérios. Que fosse simples dar um beijo, se apaixonar, amar alguém. Que fosse passageira a crise financeira. Que o tempo sempre fosse bom nos fins de semana. Que não chovesse na praia. Que a comida estivesse sempre deliciosa e que minhas plantinhas não morressem.

Claro que eu não queria que fosse tudo assim, ao mesmo tempo. Mas seria perfeito se fossem, pelo menos, duas por vez. Eu queria ter vida para tudo isso. Queria que desse tempo. Queria que essa felicidade durasse algumas horas a mais.Mas querer isso, é querer demais e o proprio viver é consequência do modo como encaramos o fim.

A VIDA ACONTECE

Adoro quando o céu fica todo azul e o sol reflete uma luz amarelo-alaranjado. Meio cor de ferrugem, meio passagem do tempo. Fico pensando em quantas pessoas não vêem a mesma coisa. Que fazem elas? Que razão teriam para se lembrar da vida?

Viver é tão assustador. Acontece com tanta velocidade. Ficamos parecendo bonecos, inertes às mudanças que, queiramos ou não, acabam acontecendo. Um dia você nasceu e no outro, morreu. Um dia lembrou, depois esqueceu. Foi e voltou. Em algum momento, deixou de ser.

Essa é a vida. Acontece a toda hora. Às vezes, somos pegos de surpresa. Boas ou más, não faz diferença. Nos tira do foco do mesmo jeito. Uma hora é uma paixão intempestiva e passageira. Noutra, é uma contrariedade qualquer que faz a gente ficar olhando pro céu na tentativa de, talvez, achar uma resposta. De, quem sabe, se lembrar de algo antigo, velho como o raio de sol.

Eu já tive medo de conhecer a mim mesma. Hoje, sinto medo apenas desse equilíbrio frio e metódico. Só de vez em quando, é bom nos jogarmos nos braços do acaso. Olharmos em volta sem querer saber quem está perto. Apenas sentir que não somos tão perfeitos assim e por isso nossa vida é tão maravilhosa.

QUEM TEM MEDO DE MORRER DO CORAÇÃO?

Eu tenho.

Tenho medo de sentir aquele momento em que o coração acelera, as mãos suam. Aquele instante em que você não consegue falar. Mal consegue respirar. Fica um bolo separando sua cabeça do resto do seu corpo. É uma angústa insuportável. Um peso incomensurável.

Eu já senti essa dor algumas vezes, quando quase pensei que fosse morrer e, de fato, morri um pouco, porque jamais voltei a ser a mesma. Cada vez que meu coração acelerou, perdi um pouco da alegria de vê-lo pulando, de sentir meu corpo tremendo, de faltar o chão.

Depois de tantas tentativas inválidas de encontrar a cura, meu coração, finalmente, parou de querer doer. Hoje vivo uma vida sadia. Não sinto mais falta de ar, não sorrio mais à toa, não fico mais tão boba.

Fiquei esperta, mas o coração parou de bater.

Acho que morri porque vivo agora uma outra vida. Diferente de tudo. Alheia a tudo. Com medo de tudo. Eu não queria ter tido essa morte assim. Mas um coração cansado e amargurado não reage à felicidade. Se esgotou por inteiro.

Agora eu procuro alguém que cure a minha vida sadia. Preciso logo ficar doente. Preciso sentir o sangue quente, o arrepio, o frio na barriga, o aperto.

Eu quero ficar doente a ponto de esquecer de mim mesma. De ficar olhando pro teto vazio e achar tudo muito divertido. De me sentir protegida cada vez que meu olhos brilharem. Eu quero um surto, eu quero morrer pra me sentir viva.

AMOR E DESPEDIDA

Preciso me afastar das pessoas antes que elas se afastem de mim…é sempre mais fácil ir embora antes. Amar é uma coisa forte que dói demais. Quando acaba no outro a gente quer morrer. Quando acaba na gente, é a dor do outro que nos corrói. E eu até hoje não entendo porque algumas pessoas ainda acham que amar é bom. O único amor que não temo é o que eu sinto pelos meus pais. É o único com o qual me sinto segura. Não porque os terei para sempre, mas por saber que sempre serei amada por eles.

Eu me sinto tão vazia quando uma casca de ovo. Tão sozinha quanto uma folha de inverno. Quanto mais eu ando…a cada passo que eu dou, sinto como se tivesse dando dois para trás. Sigo adiante assim mesmo, mas dói. E, quer saber, a dor de ser só é tão doce que às vezes vicia…é tão suave que é impossível distinguir se o que sentimos não é apenas impressão. A dor da solidão é amarga, disfarçada de alegria. É quente de tão fria. É o que sentimos quando o vazio fica tão insuportável que, para não morrermos de solidão, nos acostumamos a suportá-la.

A solidão não é uma escolha minha. Nunca foi.  Não prometi ser sozinha, nem dormir e acordar, todos os dias, do mesmo jeito. O vazio consome, destrói o que temos de bom. É como se só fôssemos metade de algo que não existe. O vazio é destruidor.

Eu nao pedi essa vida vazia e triste. Não é um fruto que eu tenha plantado. Não é uma carga que eu queira levar para sempre. Nasci com o coração grande demais para amar tão pouco. Prefiro pensar que estou esperando meu amor chegar. Se um dia ele vier, será muito amado. Se não estiver aqui a tempo….perderá um amor imenso.

VIVENDO E APRENDENDO

Às vezes eu queria ser um pássaro. Às vezes eu até acho que sou. Um ser tão pequeno, um mundo tão grande. Tantas descobertas. Tantos perigos. Não sei onde me encontro nesse mundo em que voar é perigoso, aterrisar é outra aventura. Eu fico pensando que se viver fosse mais fácil, talvez sobrasse tempo para fazermos outras coisas. A correria é tão grande e quando crescemos deixamos de ser filhotes. Somos só nós, o céu e a terra, com todos os seus contrastes.

Hoje me sinto uma ostra. Tenho tanto medo de tudo que venho me enclausurando, ficando longe de todos, deixando de viver. É uma escolha que reconheço ser desnecessária. O mundo continuará sendo o mesmo eu vivendo nele ou não. Mas tenho tanto medo da infelicidade que venho fazendo infeliz a mim mesma, antes que outros o façam. Maneira idiota de viver e covardia em ser feliz. Eu sei. Mas é muito mais difícil ser feliz e é quase impossível ser feliz sozinha.

A solidão tem me acompanhado já faz muito tempo. Não sei o que é isso. Queria tanto me apaixonar, mas sequei. Queria ficar daquela maneira boba que as pessoas geralmente ficam quando estão pensando em alguém. Eu queria, pelo menos uma vez, não ter que sofrer nem chorar um amor não correspondido. Queria que dessa vez fosse espontâneo, alegre, simples. Eu queria que ele fosse sincero, alegre, saudável. Eu queria um amor doce, desses de deixar recadinhos. Eu queria um amor quente, daqueles que o coração acelera e as bochechas coram. Não me interessaria se esse amor não fosse tudo, bastava que ele fosse um pouquinho.

Eu não queria viver essa experiência sozinha. Queria alguém pra segurar na mão, abraçar bem apertado, combinar um cinema, uma praia. Eu queria alguém que pudesse deixar minha vida mais leve e que me fizesse querer sair da concha. Alguém com uma voz mansinha, um sorriso agradável e alegria no olhar.

Eu não sei porque nunca tive alguém assim. Não sei porque é tão difícil. Essa porta, eu nunca abri. As vezes em que tentei, só sofri. Mas não me arrependo de ter tentado…só me arrependo de já ter desistido. Foi o único caminho que encontrei, foi a única solução madura. Desisti de procurar por saber da impossibilidade de encontrar. Sinceramente, não sei o que me faz mais infeliz. Honestamente, do fundo do coração, gostaria de morrer tentando. Mas a vida é prática demais e não gosta de nos ver perdendo tempo com essas inutilidades. Se você não se concentra, a vida lhe passa uma rasteira. E não adianta fingir que não se importa. No final, vai ser você e a sua vida e o pior dela.

Eu queria ter em minha memória, lembranças boas de amores felizes. Mas só tenho, no máximo, histórias de quase-amores. Não os vivi por inteiro como se eles se completassem, perdessem ai metade da graça. Viraram simples fragmentos de uma vida vazia. Restos de sentimentos que poderiam ter sido vividos e não foram. Culpa da vida? Não. Culpa minha. Culpa dessa vontade irrefreável de ser feliz, dessa incompetência em viver sozinha. Culpa da minha generosidade sentimental e dessas histórias de cinderela.

Não terei filhos. Mas se os tivesse, rasgaria todos os livros que nos dizem que o amor é um algodão doce que nunca acaba. Tenho uma vida nada doce e o amor nunca se mostrou pra mim. Não perdi minha docilidade, nem a simpatia…mas continuo sozinha. Não tenho pena dessa quase-vida, nem tenho dó de mim. Pelo menos tentei, por pior que tenha sido a aventura. O melhor e o pior eu fiz, o resto foi sorte. Eu não queria essa tristeza insalubre no meu porta-retrato. Nem esse desejo nunca saciado. Eu queria que lembrassem de mim como alguém que amou, tentou, amou de novo e desistiu, mas não desistiu por medo de tentar. Desistiu por medo de viver. Viver dá medo. Eu me assustei.

Queria poder ter filhos pra dizer algo assim. Mas é estranho. Soa como se eu fosse morrer amanhã. A vida é sempre um dia a mais. Por mais inconsequente que seja. Não é fácil se despedir da noite porque a claridade dói demais a vista. Mas começo a perceber que a escuridão nos cega também, porque não conseguimos ver os detalhes. O detalhe da vida é o amor. O detalhe da felicidade é saber oferecê-lo.

ORFÃ DE AVÓS

Hoje meu avô foi embora. Para sempre. Se é que pode existir o “forever”.

Não tenho mais avô nem avó. Sinto-me meio órfã. Queria voltar no tempo. Na época em que brincávamos de casinha no quintal. No tempo em que ambos tinham saúde perfeita e éramos felizes. Sentirei falta deles. Já estou sentindo.

Mas o tempo é o único mal que não se arrepende. Ele não volta. Porque cada passo que damos remove areias no passado. Não é possível refazer o caminho porque nossas pegadas, já não serão as mesmas.

Fico pensando em quanto pode ser breve nossa vida. Meu avô viveu quase 90 anos. Muito pouco, diante da eternidade…quase nada para a vida. Se ele conseguiu realizar os planos que tinha quando era jovem, eu não sei. Nunca saberei sequer, se ele tinha planos. Mas sei que teve uma vida simples e feliz.

Acho que no final, é isso que importa. A gente corre tanto, se preocupa tanto, morre tanto, um pouco todo dia. Esquecemos que no fim, no momento em que deixamos tudo para trás, nada mais será importante. Quando chegar a minha hora, sei que a única coisa que vai me importar de verdade, é o tamanho do amor que guardarei pelos que aqui ficarem.

Sinto que foi assim com meu avô.

Ele me dizia que eu era a luz dos seus olhos e que eu enchia sua vida de alegria. Eu sempre fui seu tesouro. Seus amores, de fato, faziam transbordar sua simplicidade. Sentirei falta do seu sorriso, das coisas engraçadas que ele fazia…para sempre meus avós serão vistos como o presente de Deus em minha vida. De toda a minha alma, agradeço ao Senhor ter-me feito nascer sua neta. Aprendi que uma vida simples, mas cheia de amor, é a melhor receita de felicidade.

Te amo, vô!

UMA VOLTA NO TEMPO

Ultimamente tenho pensado muito no tempo. No tempo que tenho, no que me resta, no que passou. Fico vendo e revendo cenas da minha vida e me entretendo com as pessoas que já passaram por ela. Penso no quão revoltante é não poder voltar e revê-las, e senti-las melhor, ouvi-las com mais atenção. Penso na quantidade de seres que já se aproximaram de mim e que agora nada mais são além de poeira de pensamento.

Já faz um ano que cheguei em São Paulo. Hoje, exatamente hoje, no tempo de um ano atrás. Quantas coisas me aconteceram, quantas eu fiz acontecer. Nessa feliz promessa de um ano bom, nesses desacerto desajustado de um todo que não conseguiu ser nada, aqui estou. Tropeçando, mas aprendendo a ser livre. Como se eu tivesse só agora, acabado de nascer. Como se no o espelho o que conhecia até então, fosse apenas um desejo, nada concreto, sem definição.
É como se só depois das durezas pelas quais passei, possa dizer que agora sim, sou gente! Agora estou pronta. Mas no fundo, sei que não estou e, pra ser sincera, nunca estarei. Ninguém está pronto para entender porque quem tanto amamos precisa, um dia, seguir um caminho da qual não poderemos fazer parte. Ninguém está preparado para isso. Nem tampouco, para as tantas guerras que travamos com nossa própria consciência diante da impossibilidade de nos conhecermos o suficiente para entendermos nosso choro, ou sorriso, ou mesmo a cara amarrada sem motivo.

Compreendo que sou um ser. Compreendo que isso implica em ser complexo e que tenho em mim todas as menores partículas do conhecimento universal. Mas nada sei. Nada dentro de mim e posso dizer que conheço mais os outros do que a mim mesma. Mas isso dói. Porque a dor dos outros também machuca, muitas vezes mais do que a nossa.

Ainda sinto dores etéreas, imensuráveis e incompreensíveis. Mas sei que estou mais ciente de quem sou ou porquê estou aqui. Quando nos descobrimos conhecedores de nós mesmos, o fardo do desconhecido se enfraquece, fica menos pesado.

Hoje é como se eu fosse um mero fantoche nas mãos de alguém que eu já estou começando a entender. Entender a lógica é o segredo. Começo a perceber os meus limites e os motivos do meu choro. Sinto saudade e essa é minha maior dor. Mas sinto desespero em ter que voltar e repetir a mesma vida. E eu acho que esse é um dos pulos que o tempo dá para mostrar que só seguindo em frente é que as coisas passam a fazer um pouco de sentido. Só a linha reta tem alguma lógica nessa porção de coisas ilógicas das quais estamos acostumados.

Não compreendo bem essa coisa de destino. Não aceito ter nascido assim, para ser assim e morrer de livre arbítrio. Por que nascer não é nossa responsabilidade, mas as escolhas que fazemos, são? Pra mim é tudo intenso demais, cheio demais e o destino nada mais é do que um caminho cheio de pedras na qual a única escolha possível é que tipo de pedras queremos ter sob nossos pés. Pra mim essa é a única escolha, de resto, não escolhemos nada. É tudo mera conseqüência de atos e fatos impensados e improvisados por nossa própria vida. Ninguém escolhe estar no fundo do poço, mas atos tresloucados nos levam a tal. E ai dizem que é o destino. Nada mais é do que nossa vontade de dizer que o mundo todo está errado e só nós estamos certos. Pode ser.

Às vezes eu fico pensando na vida e me lembro da morte. Estranho isso mas acho que só compreendemos bem a vida quando entendemos que tem um fim. Se não tivesse, viver seria só um martírio constante, uma grande luta do ser humano contra sua própria inteligência. Se há um fim, há um propósito nisso tudo. A saudade que temos de quem partiu não pode ser tão inútil. Nem pode servir só pra criar o oco no peito que dói tanto que temos a impressão mesmo de que nada aconteceu. E essa é a única forma de enganar nosso entendimento e continuar vivendo nossa tão rasa felicidade.

Mas falando de tempo, e desse tempo que estou aqui…posso dizer que me sinto confortável (este, o único adjetivo apropriado) aqui. Não feliz. Não triste. Não estressada. Não depressiva. Sinto-me simplesmente livre. Talvez esse seja o maior sentimento que possua. Nunca fui tão dona de mim, embora não tenha rompido totalmente o cordão, a linha que me liga à minha família. Não sei se um dia cortarei esse elo, mas estou certa que me fortaleço a cada nova etapa que se apresenta para mim. E confesso que nunca fui tão longe, mas sei que de onde estou, ainda não consigo ver o fim, vejo muito mais caminho e não há como voltar. Porque eu posso até levar a mesma vida de antes, mas certamente, não serei mais a mesma de antes. E eu não sei se essas voltas no tempo e se nessas idas e vindas, eu conseguiria me deparar comigo mesma e me achar ainda a mesma pessoa.

Sinto-me mais frágil do que nunca e mais forte do que aquilo que nunca pude ser. Estranha assim. Como se eu tivesse quebrando casquinhas do ovo que me encobria. Forte na minha docilidade. Tive medo de perder a candura. Tive medo de ficar igual. Mas isso não perdi. E olho ainda às vezes para os momentos em que mais sozinha estive, mais com medo me perdi e não consigo sentir raiva de nada, nem de ninguém, nem de não. Olho com um pouco de medo ainda do futuro, mas feliz por estar me saindo bem, por não ter “enfriecido” completamente. Por trazer um pouco (ou muito) do amor que herdei, do amor do tempo que deixei pra trás, do amor daqueles que chegam, dos amores que me deixaram e daqueles a quem deixei.

HÁ UMA PARTE DE MIM…

Sinto falta, na minha alma, do meu amor verdadeiro. Do meu eu inteiro, sem faltar nenhum pedaço. Há uma parte de mim perdida, querendo encontrar-se. Há um mistério em tudo que vejo, que não consigo decifrar. E esse enigma, acompanha minha solidão, que de tão sozinha, já acostumou-se a ser apenas pó.

Há um desafio que eu tenho que enfrentar e riscos que preciso correr. Não porque eu queira, mas porque o rio intempestivo que corre dentro de mim, precisa escoar. Precisa de um leito que o cerque e lhe regule, precisa de uma ocasião melhor para se acalmar.

Eu não sei se a parte de mim que tem medo, connhece a outra metade que brinca de ser gente, que ri da própria ignorância e falta do que fazer. Não acho que se conheçam, mas provocam em mim uma sensação de que qualquer que seja o lado dominante, sempre levará ao mesmo resultado. Independente do pedaço meu que impera sobre minha vontade, a angústia e a solidão da busca é sempre igual.

Descubro agora fragmentos tão desconhecidos de minha personalidade, que não conseguiria discernir o que sempre foi real em mim e o que era sonho. Sempre pensei que os meus devaneios é que eram reais e agora tudo está tão confuso. Há mais descobertas a serem feitas mas temo que numa dessas, eu acabe me encontrando e me conhecendo demais.

Temo esse sentimento, assim como temo minha ignorância acerca de mim mesma. Uma profusão de sentimentos me confundem e perco as energias a cada hora. Por outro lado, sinto-me resgantando cada caco daquilo que eu nunca consegui ser, ou melhor, nunca consegui viver.

Aos poucos, sei que tudo voltará a ser como nunca foi. O conhecimento de mim também me fascina e assim como toda descoberta, me deixa trêmula, me excita, me apavora. Mas não voltarei. Esse caminho, sei que não terá volta. Uma vez descortinada, minha vida não poderá ter o mesmo palco e nem poderei sentir os aplausos das mesma platéia.

Descubro agora que o amor que sempre quis pra mim, nunca dei aos outros. Descubro agora o egoísmo íntimo do qual nunca fui capaz de expor. Sinto-me descalpelada, sem roupa, nua. Me pegaram! Agora sei que as mentiras da minha vida serão reveladas para mim mesma. Não posso mais fugir, nem voltar a cometer os mesmos delitos.

Sei que preciso correr esse risco. Sei que preciso re-aprender a amar de forma limpa, sem jogos, sem trapaças. Que preciso escolher entre o medo de viver e a razão para que eu continue existindo. E não há dúvidas de que escolherei o segundo. Porque não aguento mais o peso dos meus segredos, nem a solidão da minha alma errante e vazia.

E será assim agora. E cada vez que o mundo girar, eu saberei o que fazer porque conhecerei melhor o meu próprio jogo. Talvez eu ganhe algumas vezes, ou perca noutras milhares. Mas me sinto livre agora, porque posso dizer quem sou para a imagem que vejo no espelho. Posso olhar para essa pessoa de frente e dizer tudo que penso dela, tudo que ela me causou, tudo que eu gostaria que ela fosse. Acho que tenho esse direito. A escravidão da minha alma começa a ganhar abolição e o cubo de vidro no qual vivia, aos poucos vai se rachando. Quem sabe assim, serei feliz. Não importa. O importante é que esse medo que tenho de mim mesma é a condição mais extraordinária que já vivi, mas é também a mais aterrorizante. Adjetivos tão desiguais, tão contraditórios…faz parte de mim essa contradição, faz parte de mim me perder.

ASSUMINDO O CONTROLE

Eu fico me perguntando se o mundo seria melhor se eu fizesse as pazes com ele.

Tenho me sentido melhor ultimamente. Mais forte. Sinto que está tudo dentro de mim, só preciso pôr pra fora. Como se eu estivesse acordando para uma vida que nunca imaginava ter vivido. Estou mais leve, menos preocupada, mais consciente do que eu sou. Isso é importante, considerando que passei tanto tempo perdida entre entender o que sou e descobrir o que sinto.

É a hora. Essa é minha hora. Pelo menos agora não quero estar na dependência de ninguém, nem me apaixonar pelo cara errado, nem sofrer de amor, muito menos me deixar envolver por quem não merece nem o meu sorriso mais amarelo. A gente se deixa levar por muitas coisas, esquece que às vezes, é mais interessante ter o domínio da situação e o controle de si mesmo. Deixa de perceber o quanto é bom saber que é possível, mas eu não quero. E dizer não é chave do sucesso, muitas vezes. É estar acima daquilo que você mesma é.

Eu nunca fui muito adepta das situações em que não pudesse ter o controle. Estou aprendendo que nem tudo podemos controlar, mas é possível reagir quando podemos prever. Às vezes, o previsível é o que nos vai salvar. Às vezes, é só nisso em que temos que confiar. Nos nossos sentidos, na nossa intuição, naquela réstia de luz que vislumbramos quando a situação nos cega.

Eu sempre me neguei o direito de ser feliz porque sempre acreditei que não merecia, ou que era impossível. Posso sim ser feliz, isso pode ser parte de mim. Só preciso acreditar mais nos sinais, nas provas, na intuição. Observar quando existe algo errado, quando devo parar, quando devo ficar quieta, esperando. Isso é controle e pela primeira vez em minha vida experimento essa sensação e só posso dizer que é muito boa. Quero sentir isso mais vezes. Chega de ser escravizada pelos sentimentos, cansei de me sentir vazia, sendo levada pelo vento. Agora sou eu que administro minha vida e conserto as coisas que não acharem corretas.

ALGUM LUGAR DE MIM

Vou ter que mudar de novo. Essa é a quinta vez que me mudo em menos de um ano. Espero que seja definitivo dessa vez. Aliás, acho que definitivo é algo que não combina muito comigo. Tudo tem sido muito transitório ultimamente. Vim pra São Paulo e desde então, não tive um momento em que me sentisse bem em algum lugar, nem que tivesse encontrado minha casa. Talvez nem tenha tido, verdadeiramente, uma casa desde que cheguei aqui.

Mas não era sobre isso que queria falar. Hoje fui à terapia. Está sendo ótimo pra essa mente confusa. Eu tenho tantos pensamentos e idéias por segundo que cada vez que eu falo, toco em assuntos diferentes. Ela tem que me cortar se não, não consigo focar em nada. Fruto da minha vida complicada, ou melhor, da minha vida que eu complico sempre e cada vez mais, como se já não fosse suficiente o suicídio diário que cometo contra mim mesma.

Estou tendo que aprender a superar meus medos para ser alguém melhor. Algum lugar de mim tem que crescer. Estou revendo muitos dos meus conceitos, especialmente, aqueles que dizem respeito a mim mesma. Estou descobrindo que não sou alguém tão frágil quanto gostaria de ser ou quanto aparento ser. Na verdade, isso é muito uma máscara que eu uso para que as outras pessoas se compadeçam das minhas dores e me ame por causa disso, ou demonstre mais amor, ou queira cuidar de mim. Não é fácil descobrir seus pontos fracos, principalmente, admiti-los. É difícil também mudar a concepção de si mesmo em tão pouco tempo. Toda mudança é um processo, já dizem.

Mas, abrindo mão do lugar comum, acho que as mudanças das quais preciso são simples e ao mesmo tempo gigantescas. Eu sei tudo que devo fazer, mas não tenho coragem, nem força, nem interesse em fazer diferente. Ainda que eu saiba que isso me faz sofrer, ainda que não seja esse o caminho que desejo seguir daqui pra frente. Eu já sei que terei que abrir mão do que sempre fui a vida inteira se quiser ser, relamente, feliz. Sei que terei de mudar muitas das minhas idéias, palavras e crenças. Eu queria já ter nascido pronta, mas acho que inacabada também é uma constante em minha vida.

Ainda sinto alguma alegria dentro de mim mas a vontade de viver é tão morna. Não sinto a força que deveria sentir para saber que sou alguém comum. Eu ainda tenho vontade de me isolar do mundo e ser feliz assim. Ainda sinto medo das pessoas, mesmo sabendo que sou forte, que eu consigo. Algo que deve ser mudado. Mas não é fácil e o trajeto entre idenficar as deficiências e tratá-las, é muito longo, penoso, difícil. Mas tenho que correr….tempo é aquela coisa que se esvai da gente quando começamos entendê-lo.

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