ATRAVÉS DO ESPELHO

Minhas amigas andam dizendo que tenho sido muito chata. Ok, novidade nenhuma porque sempre fui um porre. Mas, né? Quando a galera que a gente conhece começa a dizer esse tipo de coisa é porque o bicho tá pegando – ou não.

Eu nunca me importei muito com o que as pessoas pensam e falam de mim, desde que seja verdade, claro. Mas se tem uma coisa com que eu me importo, e muito, é com a opinião daqueles que eu considero. Num gosto de dar uma de “gênio incompreendido” porque, né? Num sou tão “gênio” assim pra ficar fazendo cu doce e agindo como se soubesse de tudo mais que todo mundo. Mas, às vezes, eu queria que meus amigos entendessem algumas das minhas opiniões. Por isso, resolvi, como boa jornalista, fazer uma entrevista comigo mesma…quem sabe assim eu não me ajudo também a entender porque porra eu tenho sido tão chata até quando estou sozinha.

_ Você tem uma implicância gratuita com algumas pessoas com personalidade diferente da sua. Com que frequência isso acontece?

- Então, não é *sempre*. Só é *quase sempre*, tem diferença. E não é gratuita, não. Custa um monte pra mim ter que aguentar certas figuras. Mas é que tem um tipo de pessoa que, oi, não desce nem com skol. Tipo, eu sou toda “certinha” a maior parte do tempo, não que eu tenha vocação pra santa mas, né?. Num tem jeito. Sou o tipo *Gabriela* mesmo, serei sempre assim. E quando eu falo “certinha”, isso não significa que eu fico *fazendo a Sandy*, porque pára, eu sou bem puta quando eu quero e gosto de putaria sim, porque oi, putaria é básico. Mas tou falando em agir de acordo com o que falo. Procuro ser coerente nesse sentido. Para mim, isso faz um ser humano ser autêntico, porque se tem uma coisa que eu ODEIO é gente fingida ou que diz uma coisa e faz outra. Nossa, como isso me tira do sério. Tipos, tem a Rô e eu admiro muito ela. É mulher, oi, gosta da *coisa* e faz o quer com a própria vida, sem arrependimentos. É esse tipo de pessoa que eu gosto de estar perto, porque eu sei que vai ser sincera sempre, principalmente quando tiver de saco cheio de mim e me mandar tomar no c*.

- Que qualidades uma pessoa deve ter para ser seu amigo? Deve ser difícil conseguir isso com você, não é?

- Super é. Cara, eu sou muito tímida. Se a pessoa não chegar junto, puxar assunto, eu não vou me aproximar mesmo (claro que, às vezes, uso isso como desculpa para não falar com alguém com quem eu não esteja a fim). Pense numa pessoa super desconfiada e analítica com gente. Sou eu. Um amigo me disse uma vez que eu tenho um questionário imaginário e vou “tickando” o que há de bom ou ruim na pessoa para, só depois, permitir-me ser sua amiga, ou não. Claro que não é bem assim. Algumas vezes a empatia é mais forte que o instinto de auto-preservação. Eu só acho que amizade é uma das coisas mais valiosas do mundo. Procuro não ficar gastando muito e, além disso, Já me fudi muito com pessoas que eu achava que eram meus amigos e acho que depois de um tempo só-se-fodendo, você acaba ficando mais seletivo mesmo. Depois da minha família, vêm meus amigos e isso, pra mim, tem tanta importância que eu NUNCA chamaria de amigo alguém que não fosse capaz de dividir comigo a sua história. Porque, né?, muito fácil neguinho vir chegando, ir pra balada com você, beber junto, mas não ser capaz de também de chorar com você ou se abrir com você. Eu considero esse tipo de coisa importante. Num tem muito segredo. Também, pra quê, né?. Pra ser meu amigo, basta que a pessoa seja ela mesma (pro bem ou pro mal) e não me venha com essas mesquinharias de querer ser meu amigo por eu ter isso ou aquilo e talz, até porque, oi, a única coisa que eu teria para “dar” a alguém, nem todo mundo iria querer.

- Você vive implicando com sua colega de apartamento. Por que?

- Não é implicância. Na maioria das vezes é falta de paciência mesmo com o “fantástico mundo de Bob” onde ela vive. Então eu meio que *catuco* pra ver onde é que vai dar. Ok. Num sou a pessoa mais pé-no-chão do planeta. Tá, também sei que não sou a dona da verdade (mas gostaria muito de ser). E, tá bom, tá bom, eu sou mesmo pau no cu de vez em quando.

- É verdade que sua arrogância é uma maneira de você se proteger das pessoas? Ou será que isso não é uma desculpa que você inventou para si mesma para não transparecer que você se acha melhor que os outros?

- Cara, não tem coisa que me deixe mais pirada do que esse papo de ser-melhor-que-os-outros. NINGUÉM é melhor ou pior. As pessoas só são diferentes. Tipo, eu gosto de campo, enquanto a maioria das pessoas gosta de praia. Tem gente que acha que vai morrer se ficar em casa na sexta à noite e, dependendo da balada, eu prefiro ficar em casa na minha a me meter em roubadas. Eu adoro coisinhas fofinhas e bonitinhas e cores básicas. Minhas amigas adoram extravagâncias. Eu gosto de sossego, MPB, água de coco e dos livros do Saramago. O resto do mundo curte raive, eletrônica e ficar loucão. É diferente. Eu não sou arrogante (tá, às vezes, sim), nem mau-amada, nem a bruxa do 71, ou o caralho que alguém já deva estar me chamando a essas horas. Claro que eu sei que ando parecendo uma velha reclamona, precisa nem dizer, né? Mas, pára, é muita gente chata, hipócrita, mentirosa e fútil para eu aguentar. Preciso filtrar de vez em quando, se não, minha cabeça explode. Ai, oi, faço a *egípcia* com algumas coisas e pessoas mesmo que é pra ver se alguém entende que eu não vim ao mundo pra ser igual a ninguém.

- O que você, no auge da sua “tolerância zero”, não consegue aceitar nas pessoas?

- Olha, pra ser bem sincera, eu gostaria que meu toleranciômetro tivesse uma escala mais larga. Mas sou muito exigente com pessoas. Eu fico pra matar com gente mentirosa e com tipos torpes que eu vejo por ai, que não entendem de nada e “fingem” que são descoladas e conhecedoras do mundo, tudo no melhor estilo: colar, colou. Também odeio essa modinha de marketing pessoal. Ai, pára, né? Ninguém merece uma pessoa que só fala de si mesma, que acrescenta mais do que deve às histórias e vive das glórias do passado. Ai, dá uma angústia. Outra coisa que eu não entendo é a traição. Eu posso estar correndo o risco de parecer ser a pessoa mais ingênua do mundo mas, tipo, eu sempre achei que gostar de alguém é ficar com esse alguém e ponto. Sem reticências. Sem aquela desculpinha ridícula de que ele/ela me trai também. Sem ficar arrumando desculpas. Cara, eu não tenho nadíssima a ver com a vida de ninguém, mas não me peça pra respeitar gente assim, porque, né? São dessas pequenas coisas que o caráter de uma pessoa é feito. Moralismos à parte, eu fico pensando sempre que uma pessoa que mente, que precisa de uma máscara para se apresentar aos outros ou que trai aquele/aquela que diz que ama…porra, merece ter credibilidade em relação a alguma coisa? É aquela história de ser coerente. Agora, oi, se a pessoa for uma boa filha-da-puta, então tá. Ai, tudo bem. Não há conflito entre o que ela é o que aparenta ser.

O SENTIDO DAS COISAS

DAS CORES…

laranja sol nascente. vermelho sorvete. verde campo. azul infinito. branco água. cinza chuva. amarelo lua. marron outono. preto noite estrelada, amarelo algodão-doce…

…DOS CHEIOS…

mato. terra molhada. chuva. mar. rio. riacho. cachoeira. rosas. talco de nenem. alfazema. lavanda. capim-santo. bolo quente. chocolate. pão na chapa. lasanha. feijoada. shampoo. roupa limpa. milk shake de morango. vinho. pipoca. queijo. canela. tangerina. milho cozido. novo. saudade. casa da avó. criança. limpeza. sorriso…

…DOS SABORES…

coca-cola. chocolate. bolo de milho. torça de limão. brigadeiro. batata frita. canja. licor de menta. caramelo. bolo de rolo. gelatina. sorvete de menta com calda de chocolate quente. casquinha de sorvete. pirulito. suspiro. bala de coco. picanha. sobremesa. hidratante de fruta. sorriso de criança. roupa de algodão. nuvem. beijo gelado. mordida na barriga. tesão…

E DOS AMORES…

brincar que nem criança. dançar até cansar. cantar alto a melhor música do mundo. dormir até tarde. um bom filme na TV. a lembrança de um amigo. uma mensagem inesperada. um encontro por acaso. abraçar com força. matar a saudade. chorar de alegria. sentir falta. conquistar alguém. se apaixonar. ser amada. ver. ouvir. sentir todas as coisas. não se importar. importar-se com tudo que é importante. lutar. deitar na grama. sentir preguiça. um fim de semana. viajar. melhores amigos. família. vô e vó. sonhar. aprender. viver. ser feliz…

VONTADE DE IR EMBORA

Hoje é um daqueles dias em que eu gostaria de ser invisível ou, simplesmente, ter o poder de sumir.

Hoje eu não queria ver ninguém, nem ser importunada pela falta de respeito de ninguém. Só por hoje, eu não queria vivenciar a hipocrisia das pessoas e descobrir que eu compartilho disso também. Queria ficar longe das mentiras que as pessoas falam para serem agradáveis e queria que as coisas fossem normais para mim.

Hoje eu queria que não houvessem pessoas tão desinteressantes, nem tão burras. É tanta estupidez que às vezes me falta ar. E me pergunto se sou tão chata assim porque me falta paciência ou porque é todo mundo tão particularmente medíocre que não me dá vontade de aparecer?

Eu queria que me hoje fosse diferente, mas pra ser assim, precisaria que as pessoas também o fossem. Que elas mentissem menos, quisessem não tirar vantagem de ninguém, estivessem dispostas a respeitar o espaço do outro e compreendesse que a vida não é uma palhaçada pra todo mundo.

Às vezes eu queria descobrir como as pessoas conseguem. Como é tão fácil pra elas enganar e continuar sendo feliz. É uma vida tão concreta. Tão livre. E eu me preocupo tanto em não ferir ninguém e acabo vivendo na escuridão, o tempo todo. Parece que niguém mais valoriza a verdade, nem a honestidade, nem o caráter. Parece que “parecer” acaba sendo mais importante do que ser.

Eu queria que minha vida acabasse logo. Eu não sei se terei outra chance, mas não gosto do que vejo. Tanta mentira, tanta estupidez, tanta falta do que fazer e as pessoas acabam não fazendo nada. Nem por si mesmas, nem pelos outros. Isso aqui não me faz feliz e, a cada dia, meu desejo de partir só aumenta. Ficar para que? Não quero uma vida sem motivo, nem deserta, nem infértil, como é a vida da maioria das pessoas.

VÁ E QUANDO VOLTAR, NÃO VOLTE A CHORAR

Já estava na hora, Rita…

Deixa disso, levanta. Você já sabe que nem sempre pode viver as histórias, que quase todas, aquelas que mais desejava viver, acabam sempre por ficar a flutuar.

Esquece… foi um sonho que você sonhou acordada. Agora terminou. Parecia mágico, coisa do destino até. Nada dura para sempre. Não se culpe, não se sinta como se tivesse feito tudo errado. Você não fez, apenas seguiu a vontade de sua parte mais fraca: O coração. Terminou. Aceite isso, levante-se. Ficou tudo por viver? E daí? Você acha que o mundo vai terminar? Olhe para você… se apegue nessa coragem, levante os olhos, caminhe, siga. Faça as malas, vá embora. Não leve nada mais que o humor e a coragem. Vá…não leve o amor. Esse, se quiser, que lhe acompanhe em sua jornada. Lado a lado saberá, no fim, dar valor a todo o caminho. E se, no fim, ele já não estiver lá, fique com todas as respostas. Não queira carregar tudo com você, a bagagem fica demasiadamente pesada e, sozinha, nem sempre se consegue. Sozinha, sim. Qual o problema? Há quanto tempo está assim? Há muito… e não é por isso que deixou de viver. O que é simples para você nem sempre o é para os outros.

(eu sei… mas aqui dentro…)

Já estava na hora, Rita. Você não pode passar a vida esperando que os outros lhe sejam sinceros, você sabe que eles não são assim. Você não pode pedir coragem a quem não a tem. Pense apenas que não é o fim… que haverá outros, que você vai se apaixonar outras vezes. Você é bonita, lutadora. Esqueça os homens. A única coisa que querem de você, você sabe… depois, passa. E quando pensa que tudo vai começar, afinal, já terminou. Não insista em procurar os porquês nem as respostas. Você nunca saberá… e se vier a saber, elas nunca chegarão a tempo de você mudar o final. Não queira que os outros entendam que na sinceridade tudo fica mais fácil de suportar. Não queira que entendam que se forem sinceros sempre, você poderá admirá-los por alguma coisa. Você tem apenas um vazio, um silêncio que lhe pesa no peito. Mas deixe… isso tambem vai passar, você vai ver.

(eu sei… mas aqui dentro…)

Já estava na hora, Rita. São horas de se esquecer que aí por dentro lhe dói. Porque espera, constantemente, para acreditar nas palavras. Mas não se esqueça que há quem tenha o dom e a magia da palavra, mas nem por isso diz o que realmente sente. Você sabe, vá lá… cada um diz o que quer. Não espere receber numa medida igual à que dá. Um dia, se doer, será devagarinho.

(eu sei…mas aqui dentro…)

Já estava na hora, Rita. Pare de se apaixonar. você sabe que é sempre assim, não sabe? Então, para quê? Esqueça… não procure o que nunca vai encontrar. E, se encontrar, não pense nunca em deixar sair de você o que sente. Basta dizer “gosto de você” para que tudo se perca. Para que reste um nada do que um dia foi tanto. Aprenda a guardar os sentimentos, pelo menos os mais bonitos. Não se humilhe, não rasteje. Você merece muito mais que isso. Siga o seu caminho, não perca tempo a sonhar. Você não tem idade para esperar por nada, nem por ninguém. Já é o tempo, Rita. Não queira mudar histórias. Todos os fins estão escritos desde o início. Não fique assim, parada, só porque alguém não lhe quer. Que importa? Olha para quem tanto lhe deseja, Rita. Olhe! Não feche o peito, não diga que nunca mais. Quem sabe um dia?…

(eu sei… mas aqui dentro…)

Já estava na hora, Rita. Sempre que dentro de você os sentimentos lhe rasgam o peito,  querem nascer à força, você fica nessa mania de proteção, de os guardar entre as mãos em forma de concha porque sente que num começo, todos os sentimentos são frágeis, como passarinhos feridos. Vá embora, Rita… não fique assim de mãos ocupadas com um sentimento que não tem futuro. Vá embora, esqueça. Largue isso que teima em prender, numa qualquer berma de uma estrada qualquer e segue caminho sem olhar para trás. Porque raio você teima em sofrer? Você já sabe… se não a procura é só porque não quer. Então, diz-me: por que espera? Os finais felizes, as surpresas boas não acontecem na vida real. Espera que, do nada, lhe diga o que tanto deseja ouvir? Esqueça… nenhum homem tem tanta coragem assim. Eles quando não têm força para uma atitude fazem tudo de forma a que a outra pessoa a tenha por eles. Portanto, parece-me, Rita, que é hora de partir. Olhe para você. Já se viu bem? Nem parece de você… deixar-se ficar assim a agonizar devagarinho, definhando. A mulher que você é e como fica quando os outros lhe dão um encontrão. Levante-se, vá… já estava na hora. você sabe que nada pode esperar dos outros.

(eu sei.. mas aqui dentro…)

Rita…você é livre. Você pode voar para onde quiser. Por que não experimenta olhar para quem está perto de você e que só espera a oportunidade que você teima em não dar, simplesmente porque não se sente apaixonada? Deixe disso, Rital… por vezes é preciso aprender a gostar. E você sabe, a paixão desaparece… E se tentar, quem sabe essa pessoa não lhe surpreende? Já pensou nisso? Vá embora, Rita… já é tarde. Aprenda que as desilusões só chegam porque um dia você se deixou iludir.

(eu sei… mas aqui dentro…)

Já estava na hora, Rita. Você nem se deu conta que a noite esteve bonita, com uma lua brilhante. Você nem reparou que o dia hoje foi de sol, que o céu está azul. Vá embora, Rita. Vista as calças, o tênis, uma camiseta de qualquer cor, os brincos, o colar. Saia de casa, Rita. Já não aguento vê-la assim. Vá até à praia, ver o pôr-do-sol. Vá fotografar, leve um livro para ler em um lugar qualquer enquanto toma um café, enquanto fuma um cigarro. Não teime em esconder-se do mundo, não insista nessa espera que nada lhe vai trazer. Vá, Rita… mesmo que esteja frio e não sinta, mesmo que o dia esteja sublime e não note, mas saia. Não fique aqui fechada só para não ter que sentir o peso de olhar-se. Há tanta vida lá fora…

(eu sei… mas aqui dentro…)

Já estava na hora, Rita, de partir. Vá…e, por favor, quando voltar, não volte a chorar…

Adaptado do Blog Confissões de Uma Mulher de 30 – Razão x Coração

DOIS ANOS

Preciso de uma outra vida. De um novo tempo.

A solidão da minha alma é tão profunda.  A escuridão nos meus olhos me deixa tão perdida.

Deve haver mais nesta vida do que apenas saudade.

Queria poder descobrir meus próprios segredos. Talvez eu sofreses menos. Talvez eu me tornasse mais forte. De qualquer forma, eu só queria que doesse menos esse vazio no peito.

Há exatamente dois anos cheguei. E hoje, longe de todos que amo, percebo que é preciso uma briga diária com a dor que a saudade abre na gente para que nos sintamos, minimamente, felizes. Cada dia mais, eu percebo também que abri um caminho sem volta.

Eu sei que seguir essa trilha foi escolha minha, mas isso não diminui a dor que eu sinto, nem me deixa mais forte. Às vezes faltam forças para continuar existindo, sem que se veja futuro, razão, motivo. De vez em quando, eu fico procurando algo que faça tudo fazer sentido e eu não fique com a sensação de que tudo isso é inútil.

Por que a gente sofre, mesmo quando foi nossa escolha? Por que choramos se podemos voltar a qualquer momento ao ponto de onde começamos a caminhar e fazer outro caminho?

Às vezes eu sinto como se esvaziasse em mim toda a confiança, toda coragem, toda fé. É como se eu sentisse que não existe caminho possível. E ai dói mais ainda. A única força que me segura é o amor dos meus pais. É saber que eu sempre terei para onde voltar. Essa é minha fortaleza, minha paciência, meu conselho. Sinto falta do mundo protegido que o amor deles criou para mim.

Mas já é hora de crescer. Eu sabia que em algum momento, isso aconteceria. Sabia que teria que fazer escolhas e que, nem sempre, elas seriam fáceis. Mas não imaginava que essas escolhas me deixariam tão sozinha. Não sei ao certo o que agora é mais doloroso: o caminho ou ter que segui-lo sozinha.

O que mexe mais comigo é ver o quanto tive que ser forte nestes dois anos. É perceber que, embora eu saiba que o pior já tenha passado, e que agora minha vida esteja melhor, esse é o momento em que menos eu tenho. Talvez só porque agora eu tenha conseguido tempo para sentir, de verdade, a falta que me fazem aqueles a quem eu amo. Ou talvez porque eu tenha, finalmente, entendido que para onde quer que eu vá, jamais deixarei de ser quem sou e de amar quem amo.

DIZER QUE AMO

Estou apaixonada.

Será?

Não sei.

Sinto uma vontade insuportável de estar com ele, de participar da vida dele, de beijá-lo, de tocá-lo…

Sinto uma agonia inebriante dentro do peito cada vez que penso nele, acompanhada de um sorriso bobo, sem foco, sem direção…

Eu queria que ele fosse meu. Mas tenho medo de tê-lo e, com isso, ver ele deixar de ser meu…

Meu mundo é diferente depois dele. Meu mundo é diferente com ele. Meu mundo não é mais o mesmo desde que o encontrei…

Nunca tinha sentido essa coisa estranha. Essa doideria que é se perder com uma venda nos olhos. Ser girada e depois solta. Nunca brinquei assim de cabra-cega com meus sentidos…

Estranho é querê-lo tanto e tê-lo tão pouco. E ser feliz com isso…

Tenho medo de deixá-lo, mas não de perdê-lo. Talvez porque, no fundo, eu saiba que nem meu ele é. Meu é apenas o sentimento que tenho por ele. E que vivencio sozinha…

Difícil saber como conseguir me envolver tanto. Deve ter sido por causa das tantas vezes em que ele me chama de amor. Ou do jeito carinhoso dele quando estamos juntos. Ou da maneira como o corpo dele se comunica com o meu. Ou, simplesmente, porque é ele e se fosse outro, eu não gostaria tanto…

Só sei que a voz dele aquece meu coração e mergulha minha alma no infinito. Sentir o toque dele faz meu corpo tremer. Olhar nos olhos dele acende uma centelha de luz no meu espírito…

Será que algum dia eu vou conseguir ser eu mesma de novo? Será que vou deixar de ter esse sentimento? E o sorriso alegre-bobo, será que sempre vai existir? Espero que sim…

Queria ser mais dele. Mas não sei me doar mais ou, talvez, já tenha dado tudo a ele e o pouco que sobrou é só meu. Queria dizer, um dia, que o amo. Mas não quero ser dona de palavras, apenas. O que sinto por ele é mais do que é cabível num par de fonemas…

Direi a ele que o amo numa tarde morna de sábado. Olho no olho. Coração explodindo. Corpo arrepiado. Carícias e um sorriso sem som, sem cor, sem jeito, repleto de felicidade. Direi que o amo sem falar uma única palavra. Não quero que ele escute. Quero apenas que ele sinta a minha alma dizendo para a dele: eu amo você…

CORAGEM É O AGIR DO CORAÇÃO

Sabe uma palavra que eu adoro?

CORAGEM

COR = CORAÇÃO

AGEM = AGIR

Assim, coragem é o agir com o coração. Acho linda essa estrutura. Acho apropriado o significado.

Hoje, na minha terapia, falei um pouco sobre isso. De como me falta coragem, muitas vezes, pra eu fazer o que deve ser feito. Então, pra não sofrer, eu escolho me recolher ou “desencanar”. E deixo de agir com o coração…consequentemente, deixo de viver.

Fiquei pensando hoje em tantas coisas q minha terapeuta falou e que já ouvi tantas vezes: você está sozinha porque você quer. Na verdade, a gente, sem perceber, vive fazendo escolhas para não sofrer. A gente evita se apaixonar, evita se entregar, evita dizer a verdade, evita cobrar, etc… E tudo seria menos doloroso se a gente desse a cara pra vida bater. A gente perderia menos tempo fazendo elucubrações sem sentido, que além de não nos levar a nada, ainda atrapalham mais a nossa vida. A gente ganharia mais tempo vivendo os momentos ao invés de apenas ficarmos  pensando neles e desistindo de tentar antes de conseguirmos qualquer coisa.

Eu sei que não existe fórmula para a vida, no entanto, cada um tem a sua. O que percebo é que se a gente tivesse mais coragem, perderíamos menos tempo sofrendo com coisas que, muitas vezes, só estão em nossas cabeças. Às vezes, o agir com o coração faz mais sentido e acaba sendo menos doloroso.

Estou meio triste hoje. Vejo que talvez essa minha história com o Fê não faça sentido algum ou, talvez, só faça sentido pra mim. Talvez não seja nada disso na qual estou pensando ou, quem sabe, é algo na qual ainda não pensei. Acho que as mágoas que a gente carrega embaralham muito nossa maneira de ver o mundo e por isso a gente acaba fazendo besteiras. O sofrimento acontece pq a gente se frustra e a gente só se frustra quando dá as caras pra vida. Acho que isso é viver, então. Não tem outro jeito. A única forma de passar incólume pela vida é se abstendo dela. Mas ninguém quer isso. Eu não quero isso. O que sobra é viver então, enquanto estamos vivas, a história vai se fazendo. Acho que vou deixar rolar…nao sei bem ainda…às vezes é na falta de sentido que a gente encontra sentido para as coisas ou o coração não precisa mesmo de sentido. De qualquer forma, estou confusa e é isso que sinto hoje.

DIA DOS NAMORADOS

O que é namorar?

Eu, que quase nunca namorei, não saberia dizer.

Namorar é partilhar,
É abrir mão um pouco de si mesmo.
É deixar o outro fazer parte de nossa história.
Namorar não é, simplesmente, estar com alguém.
Mas é ter alguém para estar.

Quem nunca se doou,
Quem nunca viveu a dor de felicidade que é gostar de alguém,
Quem nunca desejou ser, com o outro?
Esse nunca namorou.

Eu queria ter tido mais opções.
Mas fugi a vida toda desse compromisso.
Dessa responsabilidade que é ser responsável pelo amor por alguém.

Quando você se apaixona, se coração esquenta.
Você passa a ver a vida com um sorriso no rosto.
Tudo ganha outra cor, outro significado.

Eu queria pintar de rosa a minha vida.
Pintar da cor do amor que sinto.
Acho que vou fazer isso.
Vou pintar meu mundo colorido.
Uma cor pra cada amor.

JOGANDO A BOLA

Acontece que estou mudando. É uma transformação no fundo da alma. Dessas que direcionam a gente para um caminho só. É como se estivesse mudando de sentido, a vida.

Quando foi a última vez que senti algo de verdade? Não sei. Os meus dias tem sido repletos de vazio. Uma escuridão nos olhos. Uma tristeza no infinito. Isso ou aquilo e no final, acabo não sentindo nada. Perguntei para mim mesma o que diz meu coração e não consegui encontrar nenhuma resposta. De tão vazio, o eco retumbou. Doeu e eu pude perceber que o sentimento faz a gente ficar aquecido.

Sinto falta dos meus amados que aquecem os pedaços da minha alma. Daqueles que se foram, daqueles de quem eu me fui, dos que ainda não chegaram. Isso eu sinto de verdade e cada vez que penso nesses amados, sinto uma emoção e um calor no peito. Fico feliz porque, de certo, sei que nem tudo está perdido.

Acontece que a gente acostuma a viver só uma metade. A parte que é nossa, que é toda íntima, essa a gente deixa pra viver em segredo. A gente acaba deixando pra ser verdadeiro na frente do espelho, ou sobre o travesseiro, naqueles poucos segundos antes de dormir. Acabamos descobrindo, um dia, que o que realmente somos, ficou perdido ou, simplesmente, deixou de ser.

Eu não quero ser assim. Não quero que isso aconteça comigo. Eu quero deixar de ser o que os outros são e exigem que eu seja e voltar a fazer as coisas que meu sentido permite. Preciso deixar de ter medo, de negar, de me angustiar. Viver é uma bola que a gente chuta pra frente. Se o drible der certo, é gol. Se bater na trave, teremos sempre outra chance. Até que o jogo acabe.

DESABAFO DE VIDA

Ah, foda-se!

Estou cansada de tanta coisa. Detesto quando minha vida não acontece, quando começa tudo a funcionar de um jeito que eu não gosto, quando não tenho boas notícias.

Eu queria evitar me aproximar das pessoas, e me relacionar com elas desse jeito vazio. Eu não queria que fosse sempre assim. Só uma vez eu queria que desse certo. Somente hoje eu queria receber flores e um telefonema. E lembrar disso sempre.

Só queria esse momento meu e do outro e uma vida a nós. Sem essa de ficar triste. Sem o caso de não ser o caso. Sem desencontros fora de medida. Eu queria viver a vida nessa vida, sem interrogações ou medo de mudanças.

Estou muito cansada.
Estou muito triste.
Estou com muito medo.

Cansada de viver.
Triste por viver.
Medo de viver.

Se, hoje, me perguntassem o que é a vida, eu diria: viver é uma dor enorme dentro do peito que não tem cura. Ter medo é fugir dessa dor. É se esconder numa caverna e só sair dela quando a vida for embora. Tudo aquilo que nos toca, mexe com nossa vida. Nos faz mal, nos atropela, nos cansa.

Eu só queria um amor de verdade. Desses que fazem a gente sonhar colorido e dormir e acordar sorrindo. Desses bem tranquilos em que você acorda de manhã com um selinho e vai trabalhar mais leve. Desses que seguram sua barra quando nada está fazendo sentido. Eu queria um amor para amar e dividir esse amor em quatro pedacinhos. Um para cada estação do ano. Um que nasce, um que aquesce, um que esfria e outro que transforma.

Será que querer tanto é querer demais? Será que se eu deixar de ser quem sou, serei alguém melhor, mais digna desse amor? Eu só queria um amor sincero, que me dissesse bobagens no meu ouvido no escuro. Que me chamasse de amor na frente de todo mundo. Que colocasse meu mundo de cabeça para baixo.

Eu só queria um amor que tumultuasse minha vida e me fizesse achar graça das esquisitices desse mundo sem sentido.

« Página anteriorPróxima Página »