Posts de Setembro 10th, 2008|Página de posts diários

OS RIOS DENTRO DE NÓS E SUAS PEDRAS

Eu vi o título desse post num outro texto, de um outro autor.

Mas fiquei pensando tanto no significado dessas palavras que quis, eu também, escrever um post que tivesse esse título.

Há muito tempo deixei de considerar as pedras um delimitador da minha vida. Acho que elas é que dão forma e força às correntezas que me carregam. Elas estão lá para me tornarem mais forte, ou mais sábia, ou reterem aquilo que não pode mais correr junto a mim. Algumas pedras estão lá exatamente para me desviarem do percurso e me fazerem desenhar uma outra realidade, num outro contexto. Outras, me dão sustentação e ainda algumas represam minhas águas até que eu me transforme numa linda cachoeira, cuja luz captada pelo sol, dá origem a um gigantesco arco-íris.

É difícil dizer quantos rios existem dentro de mim. Há um rio sazional, que se rebenta quando a terra fica muito seca, árida, insuportável. Ele se enche todas as vezes que a dor da solidão aflora e começa a se formar uma tempestade de desesperança dentro de mim. Então cada gota de água que cai é uma esperança vazia que se despede do meu peito. E o rio volta a ficar cheio.

Há também um rio que de vez em quando transborda e inunda tudo ao redor, fertilizando toda a margem. Ele é o mais profundo, o mais denso, porém, o mais transparente. É o rio que segue a história da minha vida e corre comigo. Ele surgiu quando eu vim ao mundo e eu achei por bem chamá-lo de amor, porque estou certa de que foram estas as primeiras chuvas que o formaram. Ele é tão imenso, quanto maior é o sentimento que eu tenho pelo outro. Foi se enchendo aos poucos, a começar com minha família, depois com meus amigos. Então esse rio dentro de mim é tão límpido e tranquilo quanto os laços que me unem àqueles que eu amo. Não está isento de pedras, mas está muito mais cheio de ternura.

Existem ainda muitos outros rios em minha vida. Uns mais calmos, outros rasos. Uns profundos e traiçoeiros, capazes de causarem um verdadeiro naufrágio na minha alma. Alguns, por uma razão que eu ainda não entendo, deixaram de existir à medida que o terreno foi ficando mais íngrime. E outros ainda se transformaram em grande lagos, ensimesmados, parados, gelados.

Quando a natureza que existe em nós consegue figurar nossos sentidos dessa maneira, fica muito mais fácil entender que nada é constante. O universo de coisas que sentimos, fazemos, representamos, muda a cada instante, como o próprio rio. Desse jeito fica mais simples viver e perceber que as pedras fazem parte do curso de nossas águas e podem transformar-nos, enriquecer-nos ou até mesmo mudar um pouco a nossa forma. Mas elas, sozinhas, não são capazes de fazer com que o rio corra. Esse fardo é nosso. Nós somos responsáveis pelo nosso movimento e pelo que colhemos ou semeamos no caminho.