HÁ UMA PARTE DE MIM…
Sinto falta, na minha alma, do meu amor verdadeiro. Do meu eu inteiro, sem faltar nenhum pedaço. Há uma parte de mim perdida, querendo encontrar-se. Há um mistério em tudo que vejo, que não consigo decifrar. E esse enigma, acompanha minha solidão, que de tão sozinha, já acostumou-se a ser apenas pó.
Há um desafio que eu tenho que enfrentar e riscos que preciso correr. Não porque eu queira, mas porque o rio intempestivo que corre dentro de mim, precisa escoar. Precisa de um leito que o cerque e lhe regule, precisa de uma ocasião melhor para se acalmar.
Eu não sei se a parte de mim que tem medo, connhece a outra metade que brinca de ser gente, que ri da própria ignorância e falta do que fazer. Não acho que se conheçam, mas provocam em mim uma sensação de que qualquer que seja o lado dominante, sempre levará ao mesmo resultado. Independente do pedaço meu que impera sobre minha vontade, a angústia e a solidão da busca é sempre igual.
Descubro agora fragmentos tão desconhecidos de minha personalidade, que não conseguiria discernir o que sempre foi real em mim e o que era sonho. Sempre pensei que os meus devaneios é que eram reais e agora tudo está tão confuso. Há mais descobertas a serem feitas mas temo que numa dessas, eu acabe me encontrando e me conhecendo demais.
Temo esse sentimento, assim como temo minha ignorância acerca de mim mesma. Uma profusão de sentimentos me confundem e perco as energias a cada hora. Por outro lado, sinto-me resgantando cada caco daquilo que eu nunca consegui ser, ou melhor, nunca consegui viver.
Aos poucos, sei que tudo voltará a ser como nunca foi. O conhecimento de mim também me fascina e assim como toda descoberta, me deixa trêmula, me excita, me apavora. Mas não voltarei. Esse caminho, sei que não terá volta. Uma vez descortinada, minha vida não poderá ter o mesmo palco e nem poderei sentir os aplausos das mesma platéia.
Descubro agora que o amor que sempre quis pra mim, nunca dei aos outros. Descubro agora o egoísmo íntimo do qual nunca fui capaz de expor. Sinto-me descalpelada, sem roupa, nua. Me pegaram! Agora sei que as mentiras da minha vida serão reveladas para mim mesma. Não posso mais fugir, nem voltar a cometer os mesmos delitos.
Sei que preciso correr esse risco. Sei que preciso re-aprender a amar de forma limpa, sem jogos, sem trapaças. Que preciso escolher entre o medo de viver e a razão para que eu continue existindo. E não há dúvidas de que escolherei o segundo. Porque não aguento mais o peso dos meus segredos, nem a solidão da minha alma errante e vazia.
E será assim agora. E cada vez que o mundo girar, eu saberei o que fazer porque conhecerei melhor o meu próprio jogo. Talvez eu ganhe algumas vezes, ou perca noutras milhares. Mas me sinto livre agora, porque posso dizer quem sou para a imagem que vejo no espelho. Posso olhar para essa pessoa de frente e dizer tudo que penso dela, tudo que ela me causou, tudo que eu gostaria que ela fosse. Acho que tenho esse direito. A escravidão da minha alma começa a ganhar abolição e o cubo de vidro no qual vivia, aos poucos vai se rachando. Quem sabe assim, serei feliz. Não importa. O importante é que esse medo que tenho de mim mesma é a condição mais extraordinária que já vivi, mas é também a mais aterrorizante. Adjetivos tão desiguais, tão contraditórios…faz parte de mim essa contradição, faz parte de mim me perder.
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